30/11/2021 Biologia

O que é uma sindemia?

Escrito por Hexag Educação @hexagmedicina
O que é uma sindemia?

O termo sindemia teve origem em meados dos anos 1990. Foi utilizado pela primeira vez pelo médico antropólogo norte-americano Merrill Singer, da Universidade de Connecticut.

O objetivo de Singer era descrever uma situação em que epidemias se sobrepõem em decorrência de fatores ambientais, sociais e culturais que propiciam o desenvolvimento de algumas doenças. Continue lendo para saber mais sobre o termo.

Entenda o que é sindemia

Esse termo nasceu da junção das palavras “sinergia” e “epidemia”. Como mencionado anteriormente, Merrill Singer foi o primeiro a utilizar essa palavra. Em linhas gerais, uma sindemia ocorre a partir da interação de duas ou mais doenças em um contexto social que se mostra preocupante para a saúde pública.

No livro “Introduction to Syndemics: A Critical Systems Approach to Public and Community Health”, Singer explicou mais a fundo o termo. De acordo com o especialista, endemias não acontecem somente em decorrência de fatores biológicos envolvidos, mas também devido às disparidades sociais.

Como exemplo, ele pontua o fato de doenças como HIV e tuberculose, que podem gerar uma sindemia não apenas pelo fator biológico, mas também social. O HIV enfraquece o sistema imunológico de maneira que os soropositivos ficam mais suscetíveis a doenças como tuberculose. 

No entanto, nesse caso, há influência também das desigualdades sociais que expõem uma determinada parcela da população a uma saúde precária e hábitos de vida insalubres. Essas duas epidemias se mostram mais impactantes em grupos vulneráveis, como os mais pobres e refugiados. Essa junção caracteriza uma sindemia. 

Sindemia global

Atualmente, há três fatores considerados como a base da chamada sindemia global: desnutrição, obesidade e mudanças climáticas. Esses três fatores se constituem numa séria ameaça à saúde do ser humano de formas distintas, mas relacionadas. Trata-se de uma abordagem que não vê mais essas três epidemias isoladamente, mas como um grande problema que impacta o mundo como um todo.

A partir dessa visão das três epidemias como uma sindemia, é possível desenvolver estratégias que permitam superar essas doenças como o todo que é. De acordo com o relatório The Global Syndemic of Obesity, Undernutrition, and Climate Change, publicado pelo The Lancet, a sindemia é reforçada pela junção de sistemas alimentares prejudiciais para o homem e a ação de grandes multinacionais, cuja prioridade é ter lucros sem preocupação com a saúde. 

Obesidade e desnutrição não são opostos 

A produção de alimentos e a agricultura são responsáveis por cerca de 20% das emissões de gases do efeito estufa no planeta. O estilo de vida do homem contemporâneo pode ser considerado bastante ruim, especialmente pelo forte marketing da indústria de alimentos.

Desde 1975, a obesidade triplicou no mundo, contudo, paradoxalmente a desnutrição também cresceu consideravelmente. Inclusive, é necessário ressaltar que a desnutrição pode afetar tanto indivíduos com sobrepeso quanto aqueles abaixo do peso considerado ideal. Logo, chegamos à conclusão de que a obesidade e a desnutrição não são opostos.

Os mesmos sistemas alimentares insalubres e injustos que potencializam a obesidade podem estimular o crescimento da desnutrição. A economia global é a responsável por sustentar esses sistemas alimentares, tendo como grande foco o crescimento econômico

Quando os lucros são colocados em primeiro lugar, se desconsidera pontos como equidade, justiça, respeito ao planeta e a saúde humana. Dessa forma, chegamos a formação de uma sindemia.

Tratado Global de Saúde Pública

A sugestão dada pelo relatório publicado no The Lancet é que seja realizado um tratado global de saúde pública com objetivo de regular as atividades das empresas alimentícias. Algo semelhante ao que os países já fazem para lidar com as empresas de tabaco. O relatório vai além e sugere que sejam impostos limites na influência das indústrias alimentícias sobre os governos.

Um ponto que gera polêmica sob o ponto de vista econômico é a sugestão da imposição de impostos sobre a carne vermelha e o fim do subsídio de 5 trilhões de dólares para empresas dos setores alimentício e de combustíveis fósseis. Por fim, o relatório reivindica a criação de um fundo de 1 bilhão de dólares para iniciativas de combate à sindemia global. 

Melhorias da saúde contemporânea

A saúde contemporânea tem apresentado melhorias consideráveis se forem observados os números de óbitos relacionados a doenças que antes eram devastadoras. No entanto, isso tem maior relação com as intervenções médicas do que com o desenvolvimento como um todo.

A abordagem de saúde como ausência de saúde ou de tratamento e controle de enfermidades contradiz a definição de saúde da Organização Mundial da Saúde (OMS). De acordo com a OMS, a saúde é um estado completo de bem-estar físico, social e mental e não apenas a ausência de enfermidade e invalidez. 

Acredita-se que essa interpretação equivocada do conceito de saúde é a base do aumento da epidemia de Doenças Não Transmissíveis (DNTs) no planeta. A priorização da geração de riquezas pelo sistema econômico leva a uma série de prejuízos para a saúde. Há o sucesso comercial devido ao enriquecimento das corporações, mas insucessos de mercado devido aos prejuízos ambientais e problemas de saúde.

Mudanças climáticas

São estimados custos econômicos entre 5% e 10% do PIB do planeta em decorrência das mudanças climáticas. Nos países de baixa renda esses custos podem ultrapassar os 10% do PIB.

Também será nos ombros dos países mais pobres que recairão as consequências mais severas de saúde das mudanças climáticas. Algo paradoxal, haja vista que esses países foram os que menos contribuíram para o aquecimento global. O sistema de saúde pública desses países será duramente afetado. 

Esperança na mudança

Para o enfrentamento dessa sindemia global, é importante manter a esperança e saber que se mudanças foram realizadas é possível vencer o desafio ou pelo menos atenuar suas dificuldades.

Ações efetivas na busca da propagação de um estilo de vida mais saudável, melhor distribuição de alimentos e redução de emissão de gases do efeito estufa são preponderantes para alcançar bons resultados.

A consciência do ser humano é fundamental para o combate de sindemias!

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