Se você está focado na preparação para o Enem e os vestibulares de Medicina mais concorridos do país, sabe que a radioatividade é um tema recorrente na prova de Química. E, quando o assunto é o histórico de acidentes nucleares, o caso do Césio-137 em Goiânia pode aparecer nas questões de ciências da natureza.
Ocorrido em setembro de 1987, na capital de Goiás, este episódio é classificado como o maior acidente radioativo do mundo fora de uma usina nuclear e o pior da história depois do desastre de Chernobyl. Mesmo décadas após o ocorrido, o evento continua gerando discussões científicas, de saúde pública e de impactos ambientais.
Continue a leitura para compreender em detalhes como a tragédia aconteceu, suas consequências biológicas e os principais conceitos de física e química que você precisa dominar para gabaritar a sua prova.
O Acidente com o Césio-137 em Goiânia: como tudo começou?
A tragédia teve origem em um grave erro de descarte de resíduos médicos. Em 1985, o Instituto Goiano de Radioterapia (IGR) mudou-se de sua sede no centro de Goiânia, mas deixou para trás, nas instalações abandonadas, um aparelho de tratamento de câncer.
Os responsáveis não notificaram as autoridades de saúde nem a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) sobre a permanência do equipamento no local.
Em setembro de 1987, dois catadores de materiais recicláveis entraram no prédio abandonado e removeram a peça de chumbo e aço que continha a cápsula radioativa, vendendo-a para um ferro-velho local.
A liberação do “brilho azul”
Sem saber do perigo invisível, o dono do ferro-velho desmontou a blindagem da máquina a marretadas, expondo uma cápsula que continha cerca de 19 gramas de cloreto de césio-137.
O pó branco, que no escuro emitia uma intensa e fascinante luminescência azul (gerada pela ionização do ar ao redor), encantou o proprietário, seus familiares e amigos. O material foi distribuído entre vizinhos e parentes, espalhando a contaminação em poucos dias.
A gravidade da situação só foi identificada quando a esposa do dono do ferro-velho, desconfiada dos sintomas de náusea e mal-estar que se espalhavam rapidamente pela vizinhança, levou a cápsula até a Vigilância Sanitária da cidade.
Consequências biológicas e clínicas da radiação ionizante
Nas primeiras horas de exposição, o Césio-137 causou reações agudas nas vítimas, incluindo náuseas, vômitos, tontura e diarreia persistente. Com o passar dos dias, as lesões na pele evoluíram para queimaduras severas por radiação (radiodermite) e necrose tecidual.
Os dados oficiais do acidente:
- Vítimas fatais imediatas: 4 mortes registradas logo nas primeiras semanas, incluindo a menina Leide das Neves Ferreira (de apenas 6 anos), sua tia Maria Gabriela Ferreira, e dois funcionários do ferro-velho.
- Monitoramento populacional: mais de 112 mil pessoas foram triadas no Estádio Olímpico de Goiânia para verificação de contaminação.
- Contaminação de imóveis: cerca de 40 residências e estabelecimentos comerciais precisaram ser completamente demolidos devido aos níveis críticos de radiação nas paredes e pisos.
O número oficial de óbitos refere-se apenas ao período agudo do acidente. No entanto, ao longo dos anos, dezenas de sobreviventes e profissionais que trabalharam na contenção da crise desenvolveram câncer (como leucemia e tumores sólidos) e problemas psicológicos graves causados pelo isolamento social e pelo preconceito sofrido na época.
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O lixo radioativo e a cidade de Abadia de Goiás
O gerenciamento dos resíduos contaminados gerou um enorme desafio tecnológico. Todos os objetos que tiveram contato direto ou indireto com o pó radioativo, incluindo roupas, veículos, árvores, animais sacrificados, móveis e pedaços de concreto das casas demolidas, passaram a ser classificados como rejeitos de nível médio e baixo.
Ao todo, foram geradas cerca de 6 mil toneladas de rejeitos radioativos. Esse material foi transportado e armazenado em segurança em um depósito definitivo construído no município de Abadia de Goiás, situado a aproximadamente 20 quilômetros de Goiânia.
O local hoje abriga o Centro Regional de Ciências Nucleares do Centro-Oeste (CRCN-CO), subordinado à CNEN. Os resíduos foram acondicionados em embalagens metálicas e selados dentro de enormes contêineres de concreto armado, projetados para reter a radiação até que o decaimento natural torne o material inofensivo.
Césio-137 no Vestibular: conceitos químicos essenciais
Para as provas do Enem e de vestibulares, você deve compreender a estrutura atômica e o comportamento desse radioisótopo:
Estrutura Atômica
O césio (Cs) possui número atômico Z = 55. O Césio-137 é um isótopo radioativo instável que possui número de massa A = 137, ou seja, seu núcleo apresenta 55 prótons e 82 nêutrons (137 – 55 = 82).
Decaimento Radioativo
O Césio-137 sofre decaimento emitindo partículas beta menos (b-) e radiação gama (g), transformando-se no isótopo estável de Bário-137 (Ba-137). A radiação gama, por ser uma onda eletromagnética de alta frequência, possui altíssimo poder de penetração, sendo a grande responsável pelos danos celulares nas vítimas.
Tempo de Meia-Vida
A meia-vida do Césio-137 é de aproximadamente 30 anos. Isso significa que, a cada três décadas, a atividade radioativa do material armazenado em Abadia de Goiás cai pela metade. Para o seu cálculo estequiométrico no vestibular, lembre-se de aplicar a fórmula de decaimento:
Mf = Mi / 2^x (onde Mf é a massa final, Mi é a massa inicial e x é o número de períodos de meia-vida decorridos).
Atualmente, na prática médica de radioterapia e braquiterapia para o tratamento de tumores, o Césio-137 foi amplamente substituído por outras fontes de radiação mais seguras ou de menor tempo de meia-vida, como o Cobalto-60 e o Irídio-192.
As vítimas do Césio-137 hoje e o papel do CARA
Em 1988, foi criada a Fundação Leide das Neves Ferreira para dar assistência médica, psicológica e farmacêutica aos acidentados. Em 2011, a instituição foi integrada à estrutura do governo de Goiás sob o nome de CARA (Centro Estadual de Assistência aos Radioacidentados Leide das Neves).
Hoje, a instituição monitora a saúde de mais de mil pessoas expostas direta ou indiretamente à radiação, divididas em grupos de acompanhamento clínico de acordo com o grau de exposição sofrido em 1987.
O preconceito e a desinformação por parte da sociedade ainda são barreiras enfrentadas pelos sobreviventes, que por vezes são tratados erroneamente como portadores de doenças transmissíveis, embora a radiação recebida no passado não seja contagiosa.
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FAQ – Principais dúvidas sobre Césio-137 no Vestibular
O que é meia-vida de um elemento radioativo?
Meia-vida (ou período de semidesintegração) é o tempo necessário para que a atividade de uma amostra radioativa seja reduzida à metade de seu valor inicial. No caso do Césio-137, esse período é de cerca de 30 anos.
Por que o Césio-137 brilhava de cor azul no escuro?
O brilho azul não é a radiação em si (que é invisível aos olhos humanos), mas sim o resultado da interação da intensa radiação emitida pelo sal de cloreto de césio com a umidade e os gases do ar. Esse processo ioniza os átomos de nitrogênio e oxigênio atmosféricos, fazendo-os emitir luz visível azulada.
Qual a diferença entre radiação Alfa, Beta e Gama?
As partículas Alfa possuem carga positiva, grande massa e baixo poder de penetração (são retidas por uma folha de papel). As partículas Beta são elétrons emitidos pelo núcleo, com carga negativa e poder de penetração médio. Já a radiação Gama é formada por ondas eletromagnéticas de alta energia, sem carga ou massa, possuindo altíssimo poder de penetração em tecidos vivos e metais.
Qual a diferença entre irradiação e contaminação radioativa?
Irradiação: é apenas a exposição à radiação, sem contato direto com a fonte (como um raio-X). O corpo não fica radioativo e não contamina outras pessoas.
Contaminação: ocorre quando o material radioativo entra em contato direto, é absorvido ou ingerido pela pessoa. Nesse caso, ela carrega o elemento consigo e passa a emitir radiação.
Como a radiação do Césio-137 danifica o corpo humano biologicamente?
A radiação ionizante penetra nas células e quebra as moléculas de água e as fitas de DNA. Isso destrói as estruturas celulares, causando a morte imediata das células (que resulta em queimaduras e necrose) ou gerando mutações genéticas graves que podem evoluir para cânceres, como a leucemia.


