Na caça por pontos em Linguagens e Códigos nos vestibulares de Medicina e no Enem, as figuras de linguagem desempenham um papel decisivo. Entre elas, a catacrese destaca-se como uma das estruturas mais recorrentes tanto na literatura quanto na linguagem cotidiana.
Muitas vezes confundida com a metáfora simples, a catacrese possui características únicas de evolução linguística que as bancas adoram explorar em questões de interpretação de texto.
Neste artigo, você vai entender a definição formal de catacrese, ver exemplos extraídos da literatura e aprender a diferenciá-la de outros tropos (figuras de palavra) na hora da prova. Continue a leitura!
O que é Catacrese?
A catacrese é uma figura de palavra (ou tropo) que consiste na utilização de um termo figurado para designar algo que não possui um nome específico na língua. Trata-se de uma metáfora que, pelo uso exaustivo e contínuo ao longo do tempo, sofreu um desgaste, perdeu seu caráter inovador e foi cristalizada (incorporada) pelos falantes como o nome padrão daquele objeto.
O termo tem origem no grego katákhresis, que significa mau uso ou abuso. Na prática, é um empréstimo conceitual que fazemos por analogia ou semelhança de forma/função.
O exemplo clássico: Pé da mesa
Pés são estruturas anatômicas de seres vivos. Como as mesas não possuem um membro biológico de sustentação, a língua portuguesa tomou a palavra pé emprestada por semelhança funcional. Hoje, o uso é tão comum que ninguém enxerga poesia ou sentido figurado ao dizer “o pé da mesa quebrou”. Isso é a cristalização da catacrese.
Exemplos de Catacrese no Cotidiano
Para facilitar a memorização, podemos dividir as principais catacreses do nosso dia a dia em grupos analógicos:
| Categoria | Exemplos |
| Partes do Corpo Humano | Céu da boca, braço do sofá, perna da mesa, dente de alho, cabeça do prego, maçã do rosto, batata da perna, pé da página. |
| Objetos e Natureza | Boca da garrafa, asa da xícara, folha de papel, fio de óleo, braço de rio, coroa do abacaxi, pele do tomate, corpo do texto. |
| Evolução de Verbos | Embarcar no avião (originalmente restrito a barcos), enterrar um prego na parede (restrito a terra), azulejo amarelo (restrito à cor azul). |
Catacrese x Metáfora: não erre no Vestibular
Essa é a principal armadilha das bancas de Medicina (como Fuvest, Unesp e Albert Einstein).
- A Metáfora é uma comparação implícita, intencional e poética. Ela choca o leitor com uma nova imagem.
- Exemplo: “Seus olhos são dois oceanos.” (O autor escolheu criar essa imagem artística).
- A Catacrese é uma metáfora que “deu certo demais”. Ela perdeu a poesia e virou necessidade.
- Exemplo: “A cabeceira da cama.” (Não há intenção poética, é apenas a forma de nomear aquela parte do móvel).
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A Catacrese na Literatura e na Música
As bancas examinadoras raramente cobram a catacrese de forma isolada, elas a inserem em fragmentos textuais para avaliar a sensibilidade estética do estudante. Veja:
Na Literatura Brasileira
No clássico regionalista Vidas Secas, Graciliano Ramos utiliza o recurso para descrever o cenário hostil através dos olhos de Fabiano:
“Dobrando o cotovelo da estrada, Fabiano sentia distanciar-se um pouco dos lugares onde tinha vivido alguns anos.”
A expressão “cotovelo da estrada” desenha com precisão a curva sinuosa e fechada da via, utilizando a anatomia humana para dar forma à geografia da caatinga.
Na Música Brasileira
Na canção Composição Estranha, os limites entre a metáfora inovadora e a catacrese cristalizada aparecem lado a lado:
“Usei a cara da lua / As asas do vento / Os braços do mar / O pé da montanha”
- Catacreses: “Braços do mar” e “pé da montanha” (já assimilados pelo idioma).
- Metáforas: “Cara da lua” e “asas do vento” (construções poéticas livres do compositor).
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Perguntas Frequentes (FAQ)
1. Por que a catacrese ocorre na língua portuguesa?
A catacrese ocorre devido a uma lacuna no léxico (vocabulário) do idioma, conhecida como vazio semântico. Diante da falta de uma palavra específica para nomear a parte de um objeto, os falantes realizam um empréstimo linguístico baseado na semelhança de forma ou de função com outra coisa já existente.
2. A palavra embarcar em um trem é considerada catacrese?
Sim. Originalmente, o verbo embarcar significava estritamente entrar em uma barca ou navio. Com o surgimento de novos meios de transporte (trens, aviões, carros), o termo foi estendido por analogia para esses contextos, tornando-se uma catacrese verbal consagrada pelo uso.
3. Qual a diferença entre catacrese e metonímia?
A catacrese baseia-se na semelhança física ou funcional para suprir a falta de um termo adequado. A metonímia, por sua vez, baseia-se em uma relação de contiguidade ou proximidade lógica entre dois termos que já possuem nomes próprios (ex: “ler Machado de Assis” em vez de “ler a obra de Machado de Assis”, o autor pelo produto).


